quarta-feira, fevereiro 11

Ao observar com mais atenção os créditos na contracapa do dvd de "Três homens em conflito", deparei-me com um precioso exemplo de humor involuntário. O (ir)responsável pela tradução transformou o que devia originalmente ser "also starring Eli Wallach in the role of Tuco" em "também estrelando Eli Wallach no buraco do Tuco". Genial.

terça-feira, fevereiro 10

Em meados do ano passado, cansado de ser encarado como um pária da sociedade, decidi mudar de vida. Comprei um aparelho de dvd. Agora serei feliz, concluí enquanto optava pelo pagamento a perder de vista. Mas já não sei se foi uma boa idéia. Esse troço é muito viciante, fiquei obcecado em substituir minha coleção de fitas (montada a partir do acervo de locadoras em liquidação) pelos disquinhos prateados. Por outro lado, o dvd permitiu que eu recuperasse o interesse em assistir filmes, já que, há tempos, criei ojeriza por essa aporrinhação que atende por "fita vhs". Sem falar que os lançamentos no mercado digital costumam apresentar boas surpresas. Mais ou menos nessa época, adentrei a Americanas em busca de alguma promoção. Fuça daqui, fuça de lá, avistei "Milagre na Rua 34" em uma prateleira que oferecia dvds a vinte pratas. Inicialmente, pensei que fosse aquela refilmagem feita nos anos 90 com o Richard Attenborough (à qual nunca assisti). Já ia seguir adiante quando, finalmente, a ficha caiu. Se aquela era a refilmagem, que diabos a Natalie Wood estava fazendo na capa? Vai entender o porquê de a distribuidora desprezar o título com o qual o filme foi lançado originalmente por aqui e optar pela tradução literal. O fato é que "Milagre na Rua 34" não significa nada para quem nasceu abaixo da linha do Equador; "De ilusão também se vive" é mil vezes superior e resume com precisão o espírito do filme. Se antigamente o critério utilizado fosse o mesmo, "Sunset Boulevard" jamais ficaria conhecido como "Crepúsculo dos deuses".
Aliás, outro dia eu estava pensando sobre isso, os tituladores de filmes já foram bem mais criativos. Às vezes, até em excesso. Por exemplo, tem muita gente boa que não tolera o fato de "Shane" ter sido batizado com o melodramático "Os brutos também amam" - ainda no estilo exagerado, é válido citar "Amar foi minha ruína", noir rodado em exuberante technicolor e estrelado pela bela Gene Tierney. É uma posição respeitável, mas, imagine só, sem o legado cultural deixado pelo título do faroeste de George Stevens, a TVS (você sabe, o SBT) acabaria escolhendo outro nome para "Os ricos também choram", célebre novela mexicana dos anos 80. Hummm, pensando bem...
Polêmicas à parte, lembremos alguns títulos reconhecidamente bons: "O pecado mora ao lado" eu considero brilhante, apesar do desculpável erro de localização (o pecado mora no andar de cima, na verdade); nos dias atuais certamente mereceria algo "inventivo" como "Uma loura da pesada". Embora esta seja uma opinião controversa, prefiro o expressivo "Assim caminha a humanidade" ao lacônico "Giant". "Marcado pela sarjeta", aquele filme em que o Paul Newman vive um pugilista, é outro belo título. Não posso esquecer de "A felicidade não se compra" e "Do mundo nada se leva", dois representantes da categoria dos aforismos, bastante popular entre os tituladores da época. Não sei por que, mas desconfio que o nosso viajado presidente iria exultar caso ela voltasse à moda.